A exploração irracional de inertes na zona do Sequele, na província de Icolo e Bengo, tem causado inúmeros danos ambientais nos bairros Benção de Deus e Sombra dos Imbondeiros. Na realidade, o primeiro está mais para bênção” do diabo do que Deus, no segundo só sobram as tristes recordações das “sombras” das centenas de imbondeiros que foram abatidos.
Os moradores queixam-se de ameaças das ravinas, das estradas degradadas, da falta de água corrente, energia elétrica, escolas e de condições de habitabilidade.
Ilídio Manuel (Textos)
Edson Fortes (Fotos)
Um córrego de águas pútridas corre solto entre o sopé das montanhas de areia, deixando no ar, à sua passagem, um cheiro nauseabundo. O pequeno curso de águas residuais, que é proveniente da centralidade do Sequele, atravessa o bairro Benção de Deus para depois ir morrer no bairro da Sombra dos Imbondeiros.
A jusante, a água fétida espraia-se por uma depressão aberta por força da extracção de inertes e da erosão gradual dos solos, que impede o seu curso normal em direcção à Estação de Águas Residuais (ETAR) do Sequele.
Ao longo do seu trajecto, há crianças e adultos que se banham nas suas águas fedorentas, não recicladas, que têm servido também para irrigar as pequenas plantações de horto-frutícolas e a lavagem do burgau extraído das profundezas das montanhas de terra.
Do alto da colina, avista-se, ao fundo, na linha do horizonte, os prédios da centralidade do Sequele, que antes pertenciam a província de Luanda, passando agora para a de Icolo e Bengo, à conta da nova Divisão Política e Administrativa, ocorrida no ano passado.
Grande parte dos inertes usados na construção dessa centralidade foram retirados dos referidos bairros, à custa do abate de centenas de imbondeiros e sem terem em linha de conta os impactos ambientais.
No bairro, que mais parece uma “bênção” do diabo do que Deus, as condições de vida são péssimas. O ar é pesado devido à queima das montanhas de lixo, que se espalham à beira da estrada de terra batida, e que lançam gases para a atmosfera. Não muito distante das lixeiras que fumegam, há camiões de saneamento básico que descarregam dejectos recolhidos das distintas fossas da cidade de Luanda.
Há camiões, na sua maioria de fabrico chinês, que circulam entre as jazidas de areia e que levantam nuvens de poeira, à sua passagem, tingindo a vegetação de vermelho.
À conta da extracção desenfreado irracional de inertes, há enormes buracos abertos no sopé das montanhas, e uma vegetação rasteira e arbustos de pequeno porte que cresce no topo das colinas.
A extracção de inertes nessa zona começou a ser feita a partir de 2010, tendo resultado numa disputa de terras entre os populares que praticavam a agricultura na zona e alguns “empresários” angolanos que viram nesse espaço uma fonte de enriquecimento, conta Leitão Vieira, coordenador do bairro da Sombra dos Imbondeiros.
Um pouco à semelhança do que acontece noutros segmentos de negócios em Angola, o mesmo se verificou na exploração de inertes em que os nacionais são os detentores das licenças e os chineses os donos da maquinaria, sobretudo das retroescavadoras.
Um dos trabalhadores da empresa mista angolana/chinesa Bela Auge, no bairro da Bênção de Deus, que se dedica à venda de areia, assegura que ela dispõe de uma licença emitida pelo Ministério dos Petróleos e de Geologia e Minas, sem adiantar quem são os proprietários. Afirma que a empresa tem tem sido inspecionada pelos órgãos afins.
O trabalhador, que preferiu o anonimato, vive num pequeno contentor sem iluminação nem água corrente há vários anos e queixa-se das condições difíceis do seu trabalho, já que não dispõe sequer de coisas básicas como, por exemplo, uma máscara para se proteger das poeiras e dos cheiros fétidos.
Um motorista profissional, que na altura conduzia um camião Sinotruk, de fabrico chines, com capacidade para 18 toneladas, queixou-se, igualmente, das difíceis condições de trabalho.
Também sob anonimato, o motorista profissional diz que os chineses pagam-lhe um salário mensal de 90 mil Kz e recebe alguns bonos por cada carregamento que faz. À reportagem do NJ, revela que não desconta para a segurança social nem dispõe de assistência médico-medicamentosa, portanto, quando adoece, tem de contar com os seus “próprios meios”.
Neste contexto, mostra-se preocupado com o seu futuro, visto que a entidade patronal não paga a segurança social; entretanto, não reivindica os seus direitos junto à entidade patronal, por recear “perder o emprego”. “Tentamos chegar à fala com os expatriados chineses para cruzar a informação, mas sem sucesso”, conta.
Sem vínculo laboral com nenhuma empresa, Nelson Jorge Manuel, 57 anos, pai de 12 filhos, tem como tarefa cavar o cascalho, de onde é retirado o burgau, que é depois de peneirado e lavado na corrente de água proveniente dos esgotos da centralidade do Sequele. “Depois de lavado, o burgau é vendido aos montes à beira da estrada às carrinhas de marca Dina, ao preço de 18 mil Kwanzas, cada carrada”, relata.
Há cinco dias que não vendemos nada”, lamenta, c quase sem voz o ancião Nelson, que aufere mil Kwanzas/dia. Desse dinheiro, extrai uma parte para a alimentação e os transportes que gasta diariamente nas suas deslocações.
Natural da Lunda-Sul, Nelson Manuel é um daqueles cidadãos que, devido à guerra que fustigou Angola durante anos, foi.se segundo relembra, obrigado a abandonar a sua terra natal, somando actualmente 37 anos desde que fez de Luanda sua casa.
Outro trabalhador, Pedro Carlos, 38 anos, natural da Lunda-Sul, província que abandonou em 2015, dedica-se ao mesmo tipo de trabalho.
Com uma espécie de turbante na cabeça para atenuar os efeitos do sol, Pedro que possui uma prole de 5 filhos à perna, e diz que ganha diariamente 1.500/Kz pelo trabalho que faz – escavar a terra, peneirar as areias para a extracção do burgau, que é, lavado pelas águas fedorentas do Sequele.
Não muito distante do local onde os homens escavam a terra, há mulheres que se dedicam à lavagem do cascalho para a extrair o burgau, que é levado em sacos de serapilheira até à berma da estrada para a sua comercialização.
Com sinais visíveis de cansaço no rosto, as mulheres recusaram-se a falar à reportagem do NJ, argumentando que já estão cansadas de dar entrevista, pois, segundo disseram, as mesmas não as ajudam a sair da situação de pobreza em que se encontram.
Segundo o ambientalista Juarês Manico
“Os impactos acumulados ultrapassam largamente os benefícios imediatos da exploração”
Chamado a comentar o assunto, o ambientalista Juarês Manico, considera que a situação observada na zona do Sequele constitui um “exemplo clássico de degradação ambiental induzida pela exploração não sustentável de recursos geológicos. A remoção intensiva de inertes alterou profundamente a morfologia do terreno, destruiu a cobertura vegetal, acelerou processos erosivos e comprometeu importantes funções ecológicas do ecossistema local”.
O também docente da Universidade José Eduardo dos Santos, no Huambo, o qual recentemente efectuou um estudo sobre a degradação do meio ambiente nessa parcela da província de Icolo e Bengo, fez saber que, do ponto de vista científico, é verificada uma perda significativa da capacidade de resiliência ambiental da área, tornando-a mais vulnerável à erosão, às inundações e à desertificação. “O cenário actual sugere que os impactos acumulados ultrapassam largamente os benefícios imediatos da exploração”, sublinha.
No bairro, que mais parece a uma “bênção” do diabo do que Deus, as condições de vida e habitabilidade são inóspitas. O ar é pesado devido à queima das montanhas de lixo, que se espalham à beira da estrada de terra batida, e que lançam gases para a atmosfera com efeitos de estufa.
“Ao analisar os impactos actualmente visíveis, surgem dúvidas legítimas sobre a qualidade dos estudos realizados, a eficácia das medidas de mitigação propostas e, sobretudo, o nível de fiscalização durante a execução do projeto. Quando os impactos ambientais atingem a dimensão actualmente observada, torna-se necessário questionar se houve falhas técnicas, institucionais ou de governação ambiental ao longo do processo”, refere o ambientalista.
Questionado sobre o abate indiscriminado de árvores, respondeu que “representa uma perda ecológica considerável. No caso dos imbondeiros, a situação é particularmente preocupante porque se trata de uma espécie de elevado valor ecológico, cultural e paisagístico. Estas árvores desempenham funções fundamentais na conservação da biodiversidade, no armazenamento de carbono atmosférico, na proteção dos solos e na regulação do microclima local”.
E vai mais longe: “A destruição destes exemplares não significa apenas a perda de árvores, como também a eliminação de elementos essenciais para a estabilidade ecológica do território e identidade ambiental da região”.
Perguntando sobre se é possível reverter a situação a médio prazo, Juarês Manico admite que a recuperação é possível, mas exige investimentos significativos e uma intervenção técnica especializada. “Os processos erosivos tendem a tornar-se progressivamente mais severos quando não são controlados atempadamente”, adverte.
Para o também investigador da Universidade José Eduardo dos Santos, a reabilitação deverá incluir estabilização de taludes, controlo de ravinas, revegetação com espécies nativas e recuperação da drenagem natural. “Contudo, é importante esclarecer que nem todos os danos são totalmente reversíveis. Em muitos casos, o objectivo deixa de ser restaurar o ecossistema original e passa a ser reduzir os riscos ambientais e recuperar parcialmente as funções ecológicas perdidas”.
Em relação às águas residuais usadas, sobretudo na agricultura, Juarês Manico alerta que a situação é extremamente preocupante, visto que elas “podem conter elevadas concentrações de microrganismos patogénicos, nutrientes em excesso, compostos químicos e até metais pesados”.
“A utilização destas águas na agricultura sem tratamento adequado cria um mecanismo directo de transmissão de doenças para a população através da cadeia alimentar. Do ponto de vista epidemiológico, aumenta-se o risco de cólera, febre tifoide, hepatites, doenças parasitárias e outras infeções de origem hídrica. Além disso, a descarga contínua desses efluentes contribui para a degradação dos recursos hídricos e dos solos agrícolas”, adicionou.
Em sua opinião, e em jeito de recomendação sublinha que a situação da zona do Sequele não deve ser encarada apenas como um problema localizado de exploração de inertes. “Estamos perante um caso que revela as consequências da insuficiente integração das variáveis ambientais nos processos de planeamento e desenvolvimento urbano. No bairro, que mais se assemelha a uma “bênção” do diabo do que Deus, as condições de vida e habitabilidade são inóspitas. O ar é pesado devido à queima das montanhas de lixo, que se espalham à beira da estrada de terra batida, e que lançam gases para a atmosfera com efeitos de estufa. O desenvolvimento não pode ser alcançado à custa da degradação ambiental, pois os custos ecológicos, económicos e sociais acabam inevitavelmente por ser suportados pelas gerações presentes e futuras”.
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