Uma pedreira abandonada em Cacuaco: Mulheres enérgicas que fragmentam pedras à força dos braços

Na parte de cima da montanha, há uma mole de gente que vasculha os resíduos sólidos, que são diariamente depositados a céu aberto pelos camiões do lixo naquele vasto espaço. O local inóspito, o cheiro nauseabundo e o risco de contrair doenças não afastam os “visitantes” provenientes dos mais distintos pontos de Luanda.

Ilídio Manuel (texto) | Edson Fortes (Fotos)*

Em Mulenvos de Cima, no município de Cacuaco, uns procuram restos de comida que lhes possa devolver a paz aos estômagos, outros andam à cata objectos para sobreviver à custa da venda sucata: ferro, papelão e plásticos para a sua (re) venda nos distintos postos de reciclagem da capital do país. Há ainda quem faça as duas coisas.

A disputa é renhida entre os catadores de lixo, aparentemente organizados em grupos, como se actuassem em territórios previamente demarcados.

No sopé da montanha, na parte mais conhecida por Mulenvos de Baixo, a luta pela sobrevivência não é pelos resíduos sólidos, mas pelas pedras que são arrancadas do subsolo à força do trabalho braçal, e com auxílio de objectos contundentes.

São dezenas de pessoas, muitas delas mulheres, lutadoras e aguerridas, que diariamente se batem pelo seu pedação de pão.

Sofia Pinto, 51 anos, é a mais conhecida de todas e, provavelmente, a mais antiga na extracção de pedras, tendo uma experiência acumulada de 11 anos nesse “métier”.

Do interior do seu corpo franzino emerge uma força que lhe permite, com a ajuda de uma marreta, picareta, pá e alavanca remover obstáculos pesados.

Até há poucos meses, Sofia tinha parte do trabalho facilitado quando usava um macaco hidráulico, mas que lhe foi roubado. “O macaco dava muito jeito para mover as pedras pesadas”, lamenta. E acrescenta: “Agora, o trabalho ficou mais duro”.

Viúva, mãe de 6 filhos, ela chegou a Luanda, proveniente do Uíge, em “busca de melhores condições de vida”, confessa, após a morte do seu marido.

Com uma enorme prole por sustentar, Sofia começou por vender na Zunga no extinto mercado Roque Santeiro até ao encerramento desse mercado em 2012.

A luta pela sobrevivência levou-a a procurar trabalho na antiga pedreira, que ela chama de “buraco”.

Conta que começa o trabalho às primeiras horas do dia até às 16 horas, quando o seu corpo, dolente e exausto cede ao cansaço.

Revela que nos dias de “sorte” consegue encher uma carrinha de marca “Dina”, o que lhe permite amealhar entre 7/8 mil Kz, cujo dinheiro destina unicamente à alimentação dos seus filhos.

À semelhança dos demais moradores do bairro Belo Monte, ela queixa-se da falta de água, escolas e de centros de saúde na zona.

“No tempo chuvoso, não conseguimos tirar as pedras porque os buracos enchem-se de água e as vias ficam cheias de lama”, lamenta.

Apesar da idade avançada, Camilo Pereira, aos 85 anos, não se deixa abater pelo peso da senilidade. Diariamente, junta forças que lhe permitem remover e extrair “algumas pedras” das entranhas do subsolo, para, segundo o entrevistado do NJ, “ vender e não morrer de fome”.

Reconhece que tem pouca força e a cada dia que passa sente a morte a chegar-lhe de “forma silenciosa”, mas diz que “não desistir de viver”.

Mostra-se disponível para lutar até ao limite das suas forças, e que não irá cometer o mesmo erro de um amigo seu que, segundo ele, pôs fim à vida, enforcando-se.

Pai de 16 filhos, dos quais 11 sobrevivos, Camilo nasceu no município de Bulongongo, na província da Kwanza Norte, mas à conta da degradação das condições de vida naquela cidade viu-se “forçado”, há 10 anos, a migrar para a localidade de Catete, onde, segundo diz, possuía “muitas lavras”.

Afirma que foi parar aos Mulenvos de Baixo depois de “perder” as propriedades agrícolas que possuía em Catete. Ou, a fazer fé nas suas palavras, depois de lhe terem esbulhadas as terras por “ gente poderosa”.

Dito de outro modo, não teve outra saída, senão abandonar aquela localidade para finalmente “aterrar” na pedreira, onde, ao meio da manhã de uma quarta-feira, com uma pá na mão, dobrado pela cintura, movia inertes.

Camilo Pereira diz que já foi antigo combatente da luta de libertação nacional, mas que não beneficia das pensões da Caixa Social das FAA.

Confessa que já perdeu a esperança quanto à sua integração na referida caixa de apoio social, mas precisa de apoios para incentivar o seu comércio e voltar a praticar a agricultura.

Ambientalista adverte sobre os impactos negativos ao ambiente e aponta medidas de mitigação

O ambientalista Juarês Manico considera que a exploração artesanal de inertes, como pedras, areia e brita tem impactos ambientais significativos, e a prática de aquecer pedras com fogueiras agrava ainda mais a situação.

Para o investigador afecto ao Instituto Superior das Ciências de Educação (ISCED) do Huambo, a exploração artesanal de inertes, especialmente com o uso de fogueiras para aquecer pedras, provoca impactos ambientais graves, tanto imediatos quanto a longo prazo.

Em termos imediatos, causa a degradação dos solos, o aquecimento com queimadas anárquicas compromete ainda mais a estrutura do solo, destruindo nutrientes e microrganismos essenciais, enquanto a retirada de inertes expõe o solo, aumentando a susceptibilidade à erosão, especialmente em áreas propensas a chuvas intensas.

Segundo o ambientalista, as fogueiras liberam gases de efeito estufa, como dióxido de carbono e monóxido de carbono, além de partículas que afectam a qualidade do ar, impactando a saúde das comunidades locais.

“A perda de vegetação, a remoção de inertes e o uso de fogo destroem a cobertura vegetal, comprometendo habitats de fauna e flora locais”, avisa.

Segundo o entrevistado do NJ, a combinação de desflorestação, erosão e práticas inadequadas de extracção contribui para a transformação de solos férteis em áreas áridas, reduzindo a capacidade produtiva do solo para agricultura ou outros usos.

“A destruição da vegetação e a compactação do solo dificultam a infiltração da água da chuva, reduzindo o abastecimento de aquíferos e aumentando o risco de secas”, sublinha Cortês.

Diz que a exploração artesanal de inertes, de forma irregular, tem maior repercussão nas províncias do Cunene, Huambo, Huíla e Namibe, onde a vulnerabilidade à desertificação é ainda mais acentuada devido ao clima semi-árido.

Com vista a contornar a grave crise que assola o meio ambiente, o especialista em assuntos ambientais aconselha ao reflorestamento e revegetação. “Plantar espécies nativas com raízes profundas, como árvores e arbustos adaptados ao clima local, ajuda a estabilizar o solo e reduzir o impacto das chuvas. Essas plantas também protegem contra a erosão e promovem a infiltração da água”.

Adverte, por outro lado, sobre a necessidade da construção de barreiras físicas. Ou seja, estruturas como muros de contenção, gabiões (estruturas de pedra envoltas em malha metálica) e terraços podem ser usadas para conter o escoamento de água e sedimentos, minimizando a progressão das ravinas.

O ambientalista defende a implementação de acções de educação e fiscalização.

Segundo o entrevistado, deve-se sensibilizar as comunidades locais sobre os impactos da exploração descontrolada e reforçar a fiscalização por parte das autoridades ambientais para garantir o cumprimento das normas.

Crise financeira e falta de educação ambiental

O especialista reconhece que não se trata de uma medida fácil de concretizar, visto que a crise financeira das famílias é crítica. “Muitas comunidades recorrem à exploração artesanal de inertes como uma fonte de renda imediata, especialmente em regiões onde alternativas económicas são limitadas. A pobreza e a falta de acesso a outros meios de subsistência forçam as populações a priorizar a sobrevivência a curto prazo, mesmo que isso signifique degradar o meio ambiente”, justifica.

Segundo ele, ambos os factores estão interligados. A educação ambiental pode capacitar as comunidades a adoptarem práticas mais sustentáveis, mas sem alternativas económicas viáveis, como programas de geração de renda ou agricultura sustentável, as famílias continuarão dependentes de actividades predatórias.

“É necessário um esforço conjunto do governo, organizações não-governamentais e sector privado para promover educação ambiental, criar oportunidades económicas e implementar políticas de conservação”.

Defende, por fim, a importância de envolver as comunidades locais na formulação de soluções. E aponta iniciativas como as promovidas pela EcoAngola, que focam na sustentabilidade e sensibilização ambiental, “podem ser replicadas no Waco Kungo e noutras regiões do país”.

Por sua vez, o médico Jóia Santos avisa que o exercício dessa actividade, sem elementos de protecção, sobretudo máscaras, luvas e botas pode trazer problemas para a saúde dos garimpeiros.
A exposição aos agentes externos pode causar várias doenças, nomeadamente a tuberculose, asma, alergias e cânceres. “Estas patologias podem evoluir para a cronicidade, passando a ser um problema grave para a saúde pública, com impacto na actividade económica e produtiva”.

O clínico adverte, por fim, sobre a necessidade de uma sensibilização das pessoas para os perigos da exploração irracional dos recursos minerais, embora compreenda que as razões de natureza económica e financeira, ou seja, a luta pela sobrevivência estejam a falar mais alto.

As sucessivas tentativas de ouvir as versões das administrações do Waco Kungo e de Cacuaco não foram bem-sucedidas. A primeira prometeu pronunciar-se em “tempo oportuno”, a segunda remeteu-se ao silêncio.