Actividade ilícita periga o meio ambiente: Waco Kungo – do enorme potencial agrícola à exploração artesanal e irracional de inertes

A cadeia montanhosa que rodeia a vila da Cela, a capital do município do Waco Kungo, no Kwanza-sul, não só transmite um ar de imponência e grandiosidade, como também joga uma enorme importância no clima e equilíbrio do ecossistema dessa região. À tradicional produção de produtos agrícolas e pecuários juntou-se-lhe há uns anos a exploração artesanal e irracional de inertes, (pedra, brita e areia) com todas as consequências negativas decorrentes na relação homem/ meio ambiente.

Por: Ilídio Manuel (texto) | Edson Fortes (Fotos)*

Quando, no início da década de 1950, António de Oliveira Salazar projectou o Colonato da Cela, no planalto de Amboim, para promover o desenvolvimento agro-pecuário desta região do centro de Angola, o então ditador português estava longe de imaginar que um dia, em meio à exploração de produtos agrícolas e pecuários, iria emergir a extracção de inertes na vasta cadeia montanhosa que rodeia esta localidade de terras aráveis e clima ameno.

Projectado para ser um dos maiores celeiros agrícolas de Angola, o Waco Kungo seria rebaptizado com o nome de Santa Comba Dão, em homenagem à terra natal do então fundador do chamado Estado Novo. Para dar corpo ao projecto, foram deslocados para Angola centenas de famílias provenientes do meio rural, ou seja, do Portugal profundo.

Durante o período colonial, a região não só se destacou na produção de milho, café, dentre outras gramíneas, como também detinha uma vasta bacia leiteira que produzia leite para todo o país e alguns dos seus derivados eram exportados, com destaque para o famoso e conhecido queijo da Cela.

A prolongada guerra civil, além de ter dilacerado até à contundência o tecido económico, social e humano do país, forçou também a deslocação de vastos grupos populacionais de umas regiões para outras, em busca dos meios de sobrevivência.

Na zona do Rende, à saída da sede municipal, os garimpeiros de inertes têm recorrido ao uso de fogueiras para “amolecer” as pedras, de forma a facilitar a sua extracção das entranhas das montanhas.

Alberto Mbau, 53 anos, 23 dos quais dedicados à extracção de pedra, uma actividade que divide com a de agricultor.

Diz que por falta de chuvas e fertilizantes tem presentemente as atenções viradas no negócio das pedras e areia. Confessa que morreria de fome, não fosse a pequena lavra de que possui nos arredores da vila.

Alberto é uma espécie de um líder comunitário, uma voz respeitada pelos demais elementos do grupo, que é constituído maioritariamente por mulheres.

“Depois de aquecidas, as pedras são mais fáceis de partir“, explica o garimpeiro, ao mesmo tempo que aponta para um amontado de lenha, que aguarda à vez para sustentar o negócio.

O entrevistado do NJ tem uma vaga noção dos danos causados ao meio ambiente, dos buracos abertos nas rochas, assim como dos resultados das queimadas, mas alega que tem poucos meios de sobrevivência.

Maurícia Fati, 50 anos, mãe de 12 filhos, 4 das quais vivem ainda sob o seu tecto. Desses, nenhum está a estudar por “falta de dinheiro”.

Tem à sua volta vários amontoados de pedras já moídas, nas mais diversas dimensões, à espera de clientes.

No seio das mulheres que fazem do garimpo de inertes um meio de sobrevivência, a maior parte delas ostenta pequenas feridas nos membros superiores e inferiores causadas pelos pequenos estilhaços das pedras fragmentadas.

Adelina Venâncio tem 70 anos, 18 dos quais dedicados à extracção de pedras e areias numa das montanhas do bairro Kissongue, que se destinam às obras de construção civil.

Mãe de 8 filhos, dos quais 6 ainda vivos, Adelina foi “empurrada” de Benguela para o Kwanza Sul pela guerra, mas, segundo ela, não possui terra própria onde possa cultivar. E pior ainda: nem de recursos financeiros para alugar um pequeno espaço para produzir bens necessários à sua sobrevivência.

A septuagenária confessa que já não tem forças suficientes para o trabalho duro que consiste na remoção das pedras duras da montanha, pelo que se limita a fragmenta-las com auxílio de pequenos objectos contundentes.

Queixa-se das condições adversas do terreno onde trabalha, assim como do difícil acesso das viaturas aos locais de venda do produto do seu trabalho. Acredita que se estrada estivesse melhor teria as vendas aumentadas.

É a mais velha de um grupo de dezenas de mulheres, cuja faixa etária varia entre os 18 e os 70 anos.

Sem ajuda dos filhos para sobreviver, diz que o pouco que ganha da venda de pedras e areias dá-lhe para comprar “ fuba e peixe”.

Diz-se cansada com o “trabalho pesado” que faz, pelo que espera por uma ajuda do Governo, sobretudo do programa Kwenda “para comprar um terreno” onde possa cultivar.

Luísa Nhama, 31 anos, mãe de 7 filhos, 4 dos quais em vida, está há 3 anos no “negócio das pedras”.

Mãe solteira diz que não tem dinheiro para custear os estudos dos filhos, já que ganha entre os 2/3 Kz por semana.

Tem as mãos e pernas ulceradas, marcadas por pequenas feridas abertas pelo impacto das pedras no contacto com o corpo.

Para curar as feridas, que já se tornaram uma constante no seu corpo, ela recorre às plantas tradicionais e, às vezes, à medicina convencional, como o uso de pomadas.

Manuel Ulombe Candumbo, 31 anos, 5 dos quais na exploração de pedras, considera o trabalho como sendo “duro e de risco”. Conta que em 2001 quase perdeu uma perna quando procedia à extracção de pedra enorme.

Segundo ele, o trabalho não tem sido sempre compensado devido à falta de clientes. “ Às vezes, esperamos 2 a 3 meses para vender uma carrinha de marca Canter, mesmo depois de estar carregada de pedras”.

Perguntado sobre a inexistência de cooperativas, diz que não fazia sentido, uma vez que o volume de vendas não justificava.

Manuel Candumbo queixa-se igualmente da falta de apoios da Administração local no que diz respeito à distribuição de terras para a agricultura.

Mostra-se, porém, disponível para abandonar o garimpo das pedras desde que lhe coloquem à disposição uma terra e adubos. “Mas não tenho meios para alugar um espaço”, lamenta.

*NJ